sexta-feira, 4 de julho de 2014

“De Amor também se Morre” (“The Constant Nymph”, 1943): será?


Quando a autora de “De Amor também se Morre”, Margaret Kennedy, deixou no seu testamento o desejo que o filme baseado no seu livro fosse apenas exibido em Universidades e Museus (quando sua carreira comercial terminasse), fomos, em consequencia, privados de assistir esta obra por quase 70 anos...

O filme só recebeu a autorização de ser apresentado em público em 2011, para um festival do “Turner Classic Movies”. Incrível...


Semana passada tive a chance de ver este filme pela primeira vez e, apesar de ter achado certas partes meio lentas e sem dinamica, fiquei encantado com o resultado final...
Mais uma vez volto a repetir: que fascinante descobrir “novas” coisas que me motivam à pesquisas, novas leituras, novos horizontes...

O “plot” é bastante simples:
A família Sanger vive longe das convenções da sociedade da época.
O patriaca, músico, morre, deixando suas filhas, acostumadas à uma vida no campo, na Suiça, aos cuidados dos tios em Londres.
Tessa (Fontaine), uma das filhas é secretamente apaixonada por um amigo da família, Lewis (Charles Boyer); que também é músico. Ele porém pensa estar apaixonado por uma prima das meninas, a lindíssima Florence (interpretada pela fascinante e "alluring" Alexis Smith).


Tessa e a irmã são enviadas para Englaterra, para estudar num internato mas sentindo-se presas e infelizes, fogem para a casa de Lewis (e Florence).
Ele, encontrando-se numa crise criativa, transforma Tessa na sua fonte de inspiração para a completa insatisfação de sua esposa, que na realidade não é capaz de compreendê-lo como Tessa.


Como o título sugere, Kennedy usou a mitologia grega como fonte: ao contrário dos deuses, ninfas são mortais e, geralmente, possuem espíritos felizes, considerados divinos.

Fontaine dá vida à essa “ninfa” (como faria alguns anos mais tarde com “Lisa” de “Carta de uma desconhecida) uma menina de 14 anos, que “morre” de amor...

Joan Fontaine, uma atriz que nunca foi realmente bela, é a perfeita incarnação para esta menina que, segundo as palavras do diretor Edmund Goulding, deveria ser „consumptive, flat-chested, anemic and fourteen!“ (tísica, sem peito, anemica e quatorze!”) dando-lhe uma magnífica dinamica corporal, como uma verdadeira criança – mesmo em cenas nas quais a pobre Tessa fica sem ar ou se sente mal por causa de sua condição cardíaca...
Quando Goulding, durante um jantar privado mencionou à Joan suas dificuldades em encontrar uma atriz adequada para fazer "Tessa" (e como a "via" - tísica, sem peito, anemica e com quatorze anos) ela disse: "Como eu" e ganhou o papel...


Fontaine (que na época já tinha 26 anos) transforma-se diante dos nossos olhos nessa menina de 14: ela é travessa, brincalhona, desorientada e patéticamente apaixonada por “aquele” homem mais velho interpretado por Boyer!
Não consigo imaginar as atrizes que foram cogitadas para este papel como Merle Oberon, Margaret Sullavan, Olivia deHavilland (irmã e “Nemesis” de Joan) e Joan Leslie nos “enganando” tão descaradamente como Joan o faz... Transfromando-se assim...
Detalhe: a "glamourosa" Joan do poster do filme não existe no filme...

Boyer, não se encontra muito à vontade, o que é compreensível. Seu papel, extremamente unidimensional, não lhe dá possibilidades...


Já Alexis Smith (linda) perde as suas por não saber usá-las apropriadamente... Seu ciúme nos dá a impressão de uma neurose pior, não sómente causada pela relação, que nunca é cristalizada, entre Tessa e Lewis (em resposta à uma tentativa de beijo, ela diz a Lewis: “Não, esta é a casa da minha prima e tenho que respeitá-la!”).
Mas Smith ainda estava em sua fase de “treino” na Warner (junto à ninguém menos do que Eleanor Parker) que esperava ter nela uma de suas futuras estrelas, estrelas de uma geração “pós” Bette Davis...


Smith foi bastante conhecida mas nunca teve, ao contrário de Parker, esta indescritível “qualidade estelar”.

Charles Coburn e Peter Lorre (assim como Dame May Whitty) estão "bem", adequados aos seus papéis mas não criam personagens novos... senti-me como revendo-os em vários papéis que já haviam criado antes...

Belos cenários e figurinos, as eternas “escadas da Warner” (sinonimo de seus filmes, principalmente dos de Bette Davis), uma bela trilha sonora de Korngold (que, porém, evoca muitos outros filmes da Warner)e uma ótima, sútil fotografia em preto-e-branco são fatores que muito enriquecem este esquecido trabalho...


Joan Fontaine foi nominada para um "Oscar" (haveia recebido um no ano anterior) mas perdeu para a magnífica Jennifer Jones em "The song of Bernadette".


Mas uma única pergunta perdura:

por que este título em portugues? Tessa não morre de amor e sim de sua condição cardíaca...
Se morre de amor?

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